Romances e Devaneios Históricos
Sou apaixonado por romances históricos. Essa paixão provavelmente começou --- ou se consolidou --- quando, ainda adolescente, li o excelente Eu, Claudius, de Robert Graves e fiquei fascinado pelo universo sórdido da Roma antiga, com suas traições, falta de moral e total corrupção de valores. A decadência do império romano e, mais tarde, a Idade Média, passaram a ser cenários constantes de muitas das minhas leituras prediletas.
A leitura de romances históricos bem escritos nos transporta no tempo e no espaço, fornecendo-nos uma pequena janela para compreensão de mundos tão distintos do nosso. O acima-citado Graves, por exemplo, é extremamente eficaz em construir personagens verossímeis, muito mais reais que aqueles mencionados nos textos frios de livros de História. Bons romances históricos são baseados em muita pesquisa e os autores são escrupulosos o suficiente para não deturpar os acontecimentos.
Recentemente, porém, tenho me sentido incomodado por livros que, usando personagens e fatos históricos como pano de fundo, misturam fato e ficção de modo descontrolado; esses livros confundem o leitor e trazem o risco de consolidar mentiras históricas, mesmo que não tenha sido essa a intenção do autor. Fica difícil saber o que é verdade e o que é puro devaneio. Um exemplo polêmico disso é O Código da Vinci, de Dan Brown, o que acabou gerando todo um conjunto de livros, trabalhos acadêmicos e documentários de TV sobre até que ponto é verdade o que Brown postula.
Há casos em que personagens e fatos históricos são misturados a uma ficção propositalmente tão incrível que não há como induzir o leitor a acreditar que se tratem de verdades históricas. Como exemplo, temos o excepcional Jonathan Strange and Mr. Norrel, de Susanna Clarke, em que a Inglaterra utiliza de mágica em suas batalhas navais contra Napoleão. Mas infelizmente isso parece ser uma exceção.
Por exemplo, em The Eight, a autora Katherine Neville elenca Carlos Magno, Napoleão --- de novo! --- e até o matemático Fourier, numa história que prende o leitor, mas que usa os personagens históricos sem o menor escrúpulo. A mesma autora é famosa por outro livro, em que consegue a façanha de colocar os apóstolos, Calígula e Genghis Khan numa mesma história!
Acabo de ler O Mapa dos Ossos, de James Rollins. A história tem um ritmo hollywoodiano, personagens profundos como um pires e mistura agentes secretos, o Vaticano, templários, um grupo extremista de cristãos agnósticos, os Reis Magos, passagens da bíblia, evangelhos apócrifos, Alexandre, o Grande, as Sete Maravilhas do Mundo Antigo, supercondutores, metais num estado monoatômico, alquimia, laser, criando um verdadeiro Samba do Crioulo Doido com pseudohistória e pseudociência. No prólogo e depois em nota final, o autor reforça que os lugares e relíquias citados são verdadeiros, e que os fatos científicos se baseiam em pesquisas recentes. Os lugares e relíquias existem, mas aquilo que realmente importa, ou seja, os fatos, são muito suspeitos e baseados em referências duvidosas.
Continuarei lendo e recomendando romances históricos, mas previno os novos leitores dos perigos de tomar como fatos os devaneios históricos dos autores. Além de discernimento e uma mente flexível, é necessário ter interesse sobre História séria, o que não parece ser o caso de muitos autores que se aproveitam do nicho literário popularizado por Brown.





